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14 de dez. de 2016

É preciso muita coragem para desaguar


"Você está chorando?", ouvi uma das minhas amigas perguntar para a outra enquanto estávamos falando sobre um daqueles assuntos que são como nós na garganta se apertando cada vez mais com a sequência das palavras ditas. 

Com os olhos marejados, mas a cabeça erguida, pudemos ouvir um "sim" e, instantaneamente, a abracei e pedi para que ela não chorasse, porque eu teria que acompanha-la no desaguar repentino em meio à praça de alimentação de um shopping. 

Mas agora, lembrando da expressão sincera que surgiu em sua face e da decisão espontânea de não esconder as lágrimas insistentes, só consigo pensar: é preciso muita coragem para fazer isso. 

Não era simplesmente o chorar e sair com o rosto inchado de uma sala de cinema, era desvestir o sorriso automático, a risada forçada rotineira e o "uma hora vai melhorar", para admitir para si que o peso da armadura desgastou os ombros e a está levando em direção ao chão. 

É preciso muita coragem para pedir socorro sem dizer uma palavra. É preciso muita coragem para admitir que não está tudo bem. É preciso muita coragem para transbordar uma represa em uma sociedade que aplaude a seca das emoções. 

Alice Arnoldi

3 de dez. de 2016

Eu sinto muito, Ana.

                       Alice Arnoldi

Querida, Ana. 

O ano não foi fácil para você, não é mesmo? Mas você também percebeu, enquanto os dias corriam, que 2016 não estava sendo tranquilo para as outras pessoas também, não é? Então você acabou por colocar um pano leve e sem os remédios certos sob as feridas, para tratar quem você nem sabia como fazer isso, não foi? 

Agora, deixa eu tentar adivinhar: as consequências não foram as melhores. Acertei?

Sabe, Ana, mesmo depois de tanto tempo vivendo a mesma realidade, você ainda não entendeu que, por mais que alguém precise dos seus cuidados, as suas feridas estão infeccionadas e não dá mais para continuar a dizer que elas não existem. 

Elas estão sujando todos os cômodos da casa. Você não consegue ver as gotas de sangue caídas em todas às vezes que você estica a pele, sem elasticidade alguma, para tentar sorrir? Isso não é viver, Ana, é sobreviver. 

Só que a verdade é que você merece mais do que um reflexo de luz: você merece irradia-lá. Mas está difícil se lembrar disso, não está? Afinal, você distribuiu álcool e fósforos a todos, mas esqueceu de guardar, pelo menos um de cada, no bolso da sua calça favorita e surrada. 

Espero que em meio à escuridão que jogaram você, com empurrões de "não posso perdoar você agora" de cá e "as suas qualidades não existem" de lá, de alguma maneira, você consiga entender quem realmente é, independente do que pensam a seu respeito. 

Só não esquece que tentar esconder as feridas não é mais uma opção, Ana. Não dá mais. 

Alice Arnoldi

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